O sol da manhã refletia-se brilhante nos ladrilhos da cozinha. Foram limpos e polidos até o último centímetro. Os vidros das janelas, sempre transparentes, revelavam o mesmo cuidado: Esmeramente limpos, deixavam aquela luz, quase perturbável e incoveniente se não fosse necessária para acabar com os ácaros, adentrar a cozinha que já era perfumada pelo café a ser preparado. Na sala, a janela ficava fechada para evitar o pó que vinha de fora. Ora, já era necessário varrer o chão e passar pano nos móveis todo santo dia, a janela aberta só traria mais sujeira. Aliás, as janelas de toda a casa mal eram abertas. Aquele dia era o adotado para lavar o quintal, o que acontecia dia sim, dia não, acontecesse o que acontecesse e, se pudesse, faria todos os dias, afinal, a sujeira que vinha da rua era assustadora.
Há dois anos decidiu vender o carro. Aquela sujidade toda não compensava a praticidade de um automóvel. Verdadeira praticidade era não ter que varrer a garagem e a calçada toda vez que chegava de algum lugar. Também não tinha muito por que sair de casa, havia muito trabalho a ser feito: afastar os móveis e retirar as desagradáveis partículas inimigas escondidas e amontoadas atrás deles levava algum tempo.
Já haviam lhe dito que "perdia" muito tempo faxinando a casa todos os dias e que deveria aproveitar mais a vida pois a aposentadoria permitia-lhe até mesmo pagar uma empregada. Onde já se viu alguém fuçando em suas coisas! Talvez rever os amigos de quando trabalhara na Vigilância Sanitária ou alguns parentes mais próximos já que preferiu não constituir família, disseram. Achou tudo uma baboseira sem tamanho, não havia se afastado dos amigos ou dos parentes, na verdade, mantendo os tapetes alinhados e o sofá livre de emporcalhações, qualquer um era bem vindo. Só uma vez um o sujeitinho muito do mal educado não quis tirar o tênis para não sujar o chão. Foi enxotado sem um pingo de piedade.
Se a limpeza e a ordem não eram mais tidas como deveriam, não era sua culpa. As pessoas é que perderam o juízo.
Quanto ao lixo, o mesmo era retirado todos os dias da casa por motivos obviamente higiênicos. No entanto, caso não fosse o dia do lixeiro passar, eram colocados sorrateiramente a porta dos vizinhos para evitar insetos e outras pestilências.
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