A crueza de suas palavras não as eximem dos significados. Ao contrário dilaceram-me, expondo as minhas viceras, o que sou realmente, aos meus próprios olhos e diante disto é impossível permanecer incólume. Hoje, não consigo imaginar o mundo sem as palavras perfurantes da Clarice. Algumas pessoas torcem o nariz para seus livros com personagens por vezes sem nome ou até enredos bem definidos. A verdade é que Clarice colocava seu próprio ser em cada um deles e cada um deles era em parte ela mesma.
Clarice é um consolo a alma. É sim, pois sua intensa busca pelo o que é ser, estar e existir soa como uma canção familiar aos ouvidos. Parece até que suas palavras foram lágrimas que vertendo dos olhos de sua alma transformaram-se em frases sobre o obscuro e o invisível. As divagações de seus personagens eram fragmentos de seu eu e assim tornaram-se maiores que eles mesmos, era a Clarice penetrando em sua própria pele. Até que ponto ela se escondia atrás de suas crias eu não posso saber ao certo. O que sei é que meu grito contido encontrou nela sua chance de ganhar o espaço e foi aí que eu percebi, diante da busca pelo que sou, que a minha melancolia não era triste e, por isso, feia. Era triste sim, mas bela.
Segue alguns excertos:
"Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante."
"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
"Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
"A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho."
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