Frio, frio, frio! Mãos e pés ardem. O ar seco, gélido como lâmina, a respiração é quase dor: Sinto-me mais vivo. Todos os anos espero por este momento. Quando o sol é apenas parte do cenário, brilhando, rei, enchendo a paisagem de seu dourado que perturba todos as outras cores. À noite, as estrelas aparecem, esparças e esperançosas, para serem vistas por olhos mais atentos, num azul negro sem fim. A Lua, ah... a Lua! Personagem coadjuvante durante o dia, um desenho difuso e translúcido, ofuscado pela luz solar, tem na noite o deleite de sua magia soberana no baile de suas cortesãs, estrelas. Ninguém quer sair. Eu quero. Quero contemplar a noite, o frio, a solidão, as estrelas, o reflexo da Lua. No calor há inquietação. No frio, contemplação. Silêncio. Interior. Eu, vazio. É bom sentir vazio e os pêlos ouriçados, atentos. Ponta do nariz gelada, falo pelos narigudos.
Frio, frio! É quase como o pôr-do-sol. Tem um quê de despedida, de um adeus doloroso, saudade que fica. Apertinho no coração por alguma lembrança bucólica. São as folhas caindo, a vida se indo a passos invencíveis. A renovação a gente espera, fica pra depois, dali duas estações... As pessoas tem mais segredos debaixo de tanta roupa. São mais enigmáticas, pensativas, elegantes. Menos vontade de falar demais. No frio, perto é bom. Gostoso, quente. Mais quente. Dormir abraçado, conchinha, o toque arrepia, aguça o sentido e quer mais. Aconchego. No calor, pfff... fica longe, vai!
Frio! lembra Vovó, pão e bolo saídos do forno com manteiga que derrete. Filme com pipoca (que lembra manteiga que derrete) e romance (daqueles de emocionar os manteigas derretidas). Ah, como em sã consciência não há de se gostar do frio? Colocar o pijama e as meias na máquina de secar! Eu também não tenho, uso o ferro de passar. Hum, quentinho, quentinho! Umas três cobertas pra dormir, ligar o secador de cabelo por debaixo delas pra esquentar. Ih, rimou. Calor só é bom quando tá frio, por que calor é bom, mas no frio. Até o desejo obceno, a possesão e o ciúme são brasas absolventes, aquecem o íntimo do ser. Poderiam ter vivido em qualquer outro lugar, Cathy e Heathcliff se não no gélido e tempestuoso Morro dos Ventos Uivantes?
Isso me lembra que, para melhorar, quem sabe umas nuvens e de repente uma chuva a tardinha. Depois, se ainda estiver frio, lembra da Vovó? Então, achocolatado ou chá quente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário