Cresci com Michael. Eu estava aqui em 1993, nos shows de São Paulo, no Estádio do Morumbi. Vi minhas primas alucinadas por que veriam ele em cima do palco, arrasando. Eu me lembro, em 1996, quando ele veio gravar um clipe no Brasil, o rebu que foi. No fundo, quem estava aqui era ele. Ele acompanhou nossa infância, nossa adolescência. Quem nunca imitou Michael Jackson? Quem nunca riu de alguém tentando fazer os passos dele? Estou realmente triste. A ponto de não querer aceitar. De ter vontade de chorar, de desejar que seja um golpe de marketing. Como assim, o Michael morreu? Desde quando esse tipo de gente morre, oras? Não pode.
Michael Jackson não era meu ídolo. Ele era o ídolo inconsciente de todos nós. O Ícone. O Astro. Digo o porquê e, como músico, posso afirmo com todas as palavras: Ele é único. Tudo em que colocava o dedo, ou melhor, a voz, virava ouro. Não por menos: um exímio cantor, um excelente compositor e extremamente musical, além de um incomparável dançarino. É só vê-lo nos clipes e nos shows para reconhecer. Ele dançava melhor do que aqueles que estavam lá somente para isso. Como se não bastasse todo esse "talento", que nunca precisou de apelação sexual de muitos ídolos pop como Madonna, Britney Spears e Justin Timberlake, ele ainda conseguiu influenciar toda uma geração. Ele criou música, moda, modelos, o esteriótipo pop atual.
Michael foi o primeiro grande pai-e-filho da industria cultural pop adolescente. Indústria do qual foi vítima, que o destruiu quando os últimos resquícios de inteligência musical se foram desse mundo pop. Não era mais preciso música boa, dança, shows pirotécnicos, magia, show business. Era preciso ser jovem, bonito e atrativo sexualmente. O que foi toda essa transfiguração a que ele se submeteu se não uma tentativa de suprir todas essas exigências?
Michael Jackson não era meu ídolo. Mas ele sempre foi destaque em qualquer coisa que viesse a fazer. Ironicamente, alguns meses atrás me dispus a ir atrás de algum material dos Jacksons 5. O grupo era incrível. Michael era mais. E não por ser o bonitinho, o menor, a criancinha da história. Não, sem essa de Raul Gil. Aliás, se tem uma coisa que ele nunca conseguiu ser, quando deveria, foi ser criança. Dos irmãos, ele era o mais afinado, o mais musical, o que dançava melhor e o mais cativante. O que o futuro lhe reservava era apenas tudo aquilo que uma pessoa tão capaz poderia alcançar. Era questão de tempo e de inteligência, afinal, há tanta gente "talentosa" mas que não sabe o que fazer com isso. Michael bebeu da soul music, do rhythm&blues, do black, do funk (o verdadeiro) e nos trouxe muito mais do que o lixo pop de hoje em dia. Fez parcerias memoráveis com Eddie Van Halen (Beat It), Slash (Black Or White e Give In To Me) e Carlos Santana (Whatever Happens). Não estranhe se daqui a 20 anos você souber cantar Thriller, Billie Jean, Beat It, Bad, Black Or White ou qualquer outro hit dele mas não se lembrar quem foi Rihanna.
Michael Jackson não era meu ídolo. Mas ele inaugurou, associado à recém nascida MTV, a sobreposição da imagem sobre a música. Não que a música fosse menos importante agora, porém, os clipes eram tão esperados quanto os novos álbuns. O que viria a seguir? Sempre alguma inovação, algum novo curta-metragem em formato híbrido. Graças a influência do fenômeno Michael Jackson, os clipes deixaram de ser apenas uma forma publicitária para fazerem parte do imaginário. Ouvia-se a música e automaticamente as imagens vinham à mente e vice-versa. Mais do que efeitos, histórias. Mais do que coreografias, performances. Mais do que Música.
Antes dele, as garotas só gritaram tanto para John Lennon, Frank Sinatra e Elvis Presley. Se sua queda foi astronômica, a culpa é única e exclusivamente do patamar de astro que ele alcançou. Ele era próximo, íntimo, brother. Deixava eu ouvir suas músicas e ficar contente com suas levadas. É triste pensar que a partir de agora eu o ouvirei mas ele não saberá disso. Por que era como se ele soubesse que todos nós possuíamos, pelo menos em algum quesito, admiração por ele. Já é hora de admitir: Michael Jackson não era o meu ídolo. É mais. Serei eternamente fã de sua obra. O músico, o cantor, o dançarino, o showman, o performer. Michael queria ser Peter Pan e ter sua infância de volta. Tornou-se o mito e ganhou a eternidade.
Descanse em paz.
You Always Knew Just How To Make Me Cry
And Never Did I Ask You Questions Why
It Seems You Get Your Kicks From Hurting Me
Don't Try To Understand Me
Because Your Words Just Aren't Enough
- Michael Jackson & Slash - Give In To Me
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