Era tão impossível pegá-la quanto agarrar um peixe de couro com as duas mãos. Ela era como uma cobra atravessando um rio noite a dentro. Era toda escorregadia, sorrateira e quanto mais eu a queria, menos a tinha. Nem a mais ágil arapuca era capaz de prendê-la. Chegada a hora, o velho, aquele em que toda a natureza em sabedoria havia, vendo a angústia do pobre, contou-me que a única coisa que poderia prender, conquistar e amarrar seu coração, mas somente por um momento, era o brilho da alma: o cantar de uma canção tal qual o feitiço de sereia do mar, tão, tão longe dali.
Numa dessas noites em que a Lua tingia o céu como ouro bruto, sentei-me a beira do abismo cheio d'água e entoei a melodia. De súbito, todas as estrelas piscaram, todos os pássaros cantaram e, do horizonte, surgiu minha amada. Aquela cujo cabelo se derramava por todo o corpo moreno e o olhar cabisbaixo conquistava até o mais duro dos corações. Naquela noite, amei-a mais do que qualquer outro homem poderia tê-lo feito. Amei-a tanto que até o tempo parou a observar-nos, a noite acariciou-nos com seu vasto azul celeste e as árvores comemoraram farfalhando de felicidade. Até a Lua corou. Foi então que entendi que depois de mim, muitos haveriam de vir. Talvez amá-la até mais do que eu. Quem sabe? De certo, nunca igual. Quando as primeiras gotas do orvalho da manhã mergulhavam em direção ao solo, eu soube que o amor findara e que jamais a teria de novo. Nem eu, nem qualquer outro a teria uma segunda vez.
Porque, naquele lugar, era assim que os meninos se tornavam homens, e, se tornar um homem, só é possível uma única vez.
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