quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Coração de Leão

Ela tinha lágrimas nos olhos. Lágrimas que se transformariam em estrelas se um anjo estivesse lá para colhê-las. Mal pôde conter o soluço que em riso descontrolado se transfigurava enquanto fingia não se importar, se importando. Que era aquela situação descabida, puro despaltério do destino? Que era aquela noite morosa, que não cabia em seu peito em tristeza e desolação? Não, não era para ser, nem era para estar. "Tá tudo errado!", sussurrou. Mas não queria um torniquete. Com um fôlego febril que lhe corou a face, lembrou-se que ali morava um coração mais forte que o aço, até que a vida, que mesmo se uma artéria rompesse desajustada, mesmo assim, viveria para contar.

A solução para a desgraceira toda era a sangria. Achou o objeto pontiagudo ideal, derivado de alguma das inúmeras lembranças atiradas contra as quatro paredes de seu quarto numa fúria selvagemente justificada. Ela tinha os seus motivos. Ajoelhada e com o olhar fixo num remanescente retrato especial, perfurou o peito sem dó, nem piedade, e o carpete que antes encantava suas visitas pelo branco cândido, agora era tomado por um vermelho vivaz da sua dor que escorria transvestida em sangue. Ela sabia que aquele sentimento só poderia ser diluído gota-a-gota, num impulso do amor mais próprio, lentamente sendo recuperado a medida em que esvaziava seu coração dominado pelo amor impróprio. Não se deu conta de quando se desatou de sua consciência, num sono entorpecido que mais parecia uma queda livre da sacada de sua cobertura. Como um reflexo do seu medo de altura, teve náuseas, enjoo e vomitou as tripas, o resto do coração e todo resquício daquele amor insolente. Amor miserável.

No outro dia, acordou tão disposta que até levou o cachorro para passear.

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